visite outros bloggs requeri: assadeira manga chupada

sábado, fevereiro 09, 2008

florbela espanca



os meus ... ninguém ... a minha dor não cabe,
nos cem milhões de versos que eu fizera! ...

ouça lendo, leia ouvindo ...
ímpossível, poema de florbela espanca,
que fagner musicou e canta com ana de belén ...



Duas quadras


Não sei se tens reparado
Quando passeia, o luar
Pára sempre à tua porta
E encosta-se a chorar:

E eu que passo também
Na minha mágoa a cismar
Para junto dele, e ficamos
Abraçados a chorar!!!

porque hoje é sábado, atrevo-me com florbela espanca (1894/1930), cujo sentimento, transmudado em tantos versos, como a pura versão de uma vida colorizada de anil, violeta e negro, sob o ingênuo pretexto poético de traduzir o drama que constituiu uma fugaz existência, drama iniciado quando ainda menina e consumido, acabado, completado, no primeiro ano dos da década de 30, enquanto a poetisa contava, nos dedos, os dias que restavam de uma vida amarga, sofrida ... me atrai sobremaneira.

carta de florbela ao irmão em 29 de dezembro de 1923, conforme carimbo do correio.

Meu querido irmão

Certamente te irá surpreender e penalizar a minha carta, mas entendo que é melhor dizer-te eu própria tudo o que há de novidade, em vez de deixar que aos teus ouvidos cheguem malevolências que te podem dar de mim uma ideia errada e injusta.
Eu deixei que tivesses da minha vida uma certeza de felicidade que ela de forma alguma possuía, nunca me ouviste uma queixa, nunca ninguém me viu uma lágrima, e no entanto a minha vida de há 2 anos foi um calvário que me dá direito a ter razão e a não me envergonhar de mim. Sofri todas as humilhações, suportei todas as brutalidades e grosserias, resignei-me a viver no maior dos abandonos morais, na mais fria das indiferenças, mas um dia chegou em que eu me lembrei da vida que passava, que a minha bela e ardente mocidade se apagava, que eu estava a transformar-me na mais vulgar das mulheres, e por orgulho, e mais ainda por dignidade, olhei de frente, sem cobardias nem fraquezas, o que aquele homem estava a fazer da minha vida, e resolvi liquidar tudo simplesmente, sem um remorso, sem a mais pequena mágoa. Estou a divorciar-me e para me casar novamente, se a lei mo permitir, ou para viver assim, se a moralidade do Código o exigir. Dois anos lutei em vão para fugir a um amor que estava a encher-me toda, e este que encontrei agora orgulho-me dele pois é um ser único, como eu esperava encontrar, enfim, na vida.
Tudo quanto me digas não é a décima parte do que eu me tenho dito.
Pensei na sociedade, pensei na família, nos amigos, e principalmente em ti, mas que queres? Eu não podia sacrificar-me a isso tudo que é muito, mas que nada é comparado a isto que eu sinto e que eu antes queria morrer do que perder.
Por isso não me digas nada, para quê?
Pensa de mim o que quiseres, que eu estou disposta a aceitar tudo contanto que uns olhos me vejam sempre a melhor, a única entre todas as outras.
Que importa o resto?
Para ti serei sempre a mesma, a irmã muito amiga de quem podes dispor em toda a minha vida; para os outros morri; que me enterrem em paz, que não pensem mais em mim e é tudo o que eu desejo.
Gostava de saber de ti, mas se tu não quiseres mais lembrar-te que eu existo, adeus até um dia que tu queiras, pois serei sempre a mesma,

a tua Bela


Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.

Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…

filha de joão maria espanca, um dos pioneiros do cinematógrafo em portugal que, casado com maria toscano e não podendo ter filhos, faz uso de uma prerrogativa machista e medieval que reza: se um casamento não gera filhos, o marido pode tratar de tê-los com outra mulher. nasce flor bela lobo, em 8 de dezembro de 1894. a mãe, antonia conceição lobo, depois de gerar mais um filho de joão maria, apeles, abandona-o e às crianças, que passam a conviver com o pai e sua mulher.
na escola primária, em 1899, flor bela passa a assinar flor d’alma da conceição espanca.
a iconografia (pra quem não sabe, coleção de imagens) de florbela é bastante extensa e, a maioria de suas imagens, foi feita pelo pai que montou um estúdio em évora, despertando nela a paixão por aquela arte.
a vida e a morte foi, aos sete anos de idade, seu primeiro poema e, nele, ela demonstra a preferência por temas melancólicos.
seu ingresso na escola secundária é quase inédito, pois, aquilo não era visto com bons olhos pela sociedade. aos 19 anos acontece seu primeiro casamento com alberto moutinho, colega de escola.
o projeto, trocando olhares, coletânea de 88 poemas e três contos, de 1915, ainda pode ser visto através do caderno que deu origem ao projeto e que está exposto na biblioteca nacional de lisboa.

sua vida, desde cedo, é abarrotada de frustrações e altos e baixos. abortos, casamentos que terminam e que provocam o afastamento da família, a morte do irmão apeles, em um trágico acidente ...
"... e não haver gestos novos nem palavras novas.”

com esta frase, às 2 horas do dia 8 de dezembro de 1930, dia em que seus dedos encerram a contagem de trinta e seis aniversários, florbela d’alma da conceição espanca sela seu diário e comete suicídio ingerindo dois frascos de veronal.
décadas mais tarde seus restos mortais são transportados para vila viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

11 comentários:

Mara* disse...

fanatismo, gravado por fagner também é de florbela. adoro florbela tanto quanto fernando pessoa.

minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
meus olhos andam cegos de te ver!
não és sequer a razão do meu viver,
pois que tu és já toda a minha vida!

não vejo nada assim enlouquecida ...
passo no mundo, meu Amor, a ler
no misterioso livro do teu ser
a mesma história tantas vezes lida!

tudo no mundo é frágil, tudo passa...
quando me dizem isto, toda a graça
duma boca divina fala em mim!

e, olhos postos em ti, digo de rastros :
ah! podem voar mundos, morrer astros,
que tu és como Deus: princípio e fim!



'o meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade sei lá de quê!' (florbela espanca)

requeri disse...

... e eu adoro. mas este é menos conhecido e tem aquela frase lá do início do post, que é forte e esquisita ... rsrs ... sou apaixonada essas pessoas esquisitas, que escrevem esquisito ... filmes esquisitos, que me desafiam e escadalizam a maioria ... adoro escandalizar a maioria ... beijo.
sabes adonde yo voy ahora??? recomeçar o meu aprendizado de leitura. hj é com a ilíada de homero que eu vou degladiar e debater. depois te conto. aposto que vc gostaria de estar aqui e ir comigo e com seu borges que, aliás, não vê com bons olhares os meus atrasos ... fui, mi amor ... besos ...

Mara* disse...

fui também...ontem foi aniversário da minha neta, hoje é a festa...hasta la vista baby!!!

ah! provavelmente vou sumir por esta semana também...o professor atilio me aguarda ansioso lá na unesp...e com certeza, tudo o que arrumei está desarrumado novamente...

Luiz Lailo disse...

Aproveitei o tema e pesquisei, não a Florbela Espanca - a Requeri já esgotou o assunto - , mas os problemas que Fagner comprou musicando versos alheios. Certa vez, na TV, ele falava sobre as exigências da família da Cecília Meireles por ter musicado alguns de seus versos, na maior ingenuidade, segundo ele, pois era um ignorante em matéria de direitos autorais. No programa pediram compreensão para o seu drama porque, afinal, não era uma pessoa viciada em drogas, apenas viciado em Cecília Meireles.
Depois foi a vez dos familiares de Heckel Tavares. Ele gravou um tema que julgava de domínio público e 27 anos depois os abutres, familiares do compositor folclórico, descobriram a carniça.
Família de compositor famoso não precisa ter nenhum talento, só vestir uma pele de hiena e viver às custas do falecido.

requeri disse...

lu, eu ia falar sobre isso mas ia ser uma lambança ... mas eu conheço essas encrencas do fagner, principalmente a com a família da cm. a música ficou linda. tenho aqui, vou procurar e dia qualquer ponho pro povo escutar ... boa lembrança ... beijo.

requeri disse...

vai lá vó ... rsrsrs ... sorry, perco a pose mas não perco a piada ... beijo ... e eu vou ficar sem vc a semana toda??? ce tá loka??? falou com o jiló??? sabe o que eu pensei, tb lavando louça e que me provocou um certo riso solto??? uma dupla de folk music - sertaneja eles não suportariam - porrinha e jiló, ou ficava melhor, jiló e porrinha, ou ainda porra e jilozinho ... rsrs

mara* disse...

canteiros é uma das músicas mais lindas...e essa coisa de direitos autorais e plágios me fez lembrar do refrão "tê-tê-teteretê" do jorge ben jor copiado pelo ex-coveiro britânico...o jorge levou, mas o advogado do rod stewart, matreiramente, doou para UNICEF....aí eu pergunto...plagio ou influência?....rs....

falei com o jiló gigante, ele agradeceu a oferta e mandou um abraço...a turma daqui vai com uma van fretada...vão e voltam...é o que fazem sempre...

claro que darei umas sapiadas por aqui...esqueci de dizer, que também começa o meu curso técnico...quer dizer, vou ter apenas a minha madrugada para sapear...


ah...mudei totalmente o layout do pintando música, diga-me como ficou e eu te direi quem és...

requeri disse...

adorei!!! vc é a minha blogger style preferida ... beijo

Mara* disse...

hummmmmmm....direto do planalto paulistano, sábia e oportuna orientação...

Luiz Lailo disse...

Bom dia, fessôra. Trouxe uma maçã virtual para a senhora.

requeri disse...

brigada ... depois te conto melhor essa história ... por e-mail, mais tarde. adoro maçã ... beijo.

 
Template by Mara*
requeri/2010