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segunda-feira, abril 21, 2008

joão gilberto

música é o melhor bem universal ...
em verdade lhes digo:
lido com esse, um dos mais interessantes e desconhecidos fatos da história da mpb, como se fora o mais comovente. a voz que se apresenta de pato rouco desafinado seguindo um barquinho que vai, numa tardinha que cai, nem sempre foi assim. joão gilberto poderia ter sido um dos maiores vozeirões do brasil concorrendo, corpo a corpo, cabeça a cabeça com orlando silva, nelson gonçalves e quetais. conheci-o, o fato, em detalhes, através do livro de ruy castro, chega de saudade, uma brilhante publicação da companhia das letras de 1990.

fico emocionada diante do privilégio de ter lido o que ruy castro diz - um banho de conhecimento narrativo e histórico - no capítulo 10, desafinado, página 197, do seu livro das histórias da bossa nova:
"charlton heston descendo do monte sinai com os 10 mandamentos debaixo do braço - foi mais ou menos esta a sensação dos que ouviram "chega de saudade" com joão gilberto pela primeira vez. mesmo os que achavam tom jobim moderno por "foi a noite" e "se todos fossem iguais a você" tiveram um choque. em menos de dois minutos, estas canções ficaram tão antigas quanto "ninguém me ama" - relíquias do romantismo noir de homens mais velhos, que tinham amantes e não namoradas e cuja alma era tão enfumaçada quanto as boates em que afogavam seus chifres. "chega de saudade", como depois diria pitorescamente o maestro rogério duprat, fora uma pernada na era boleral. ..."

daqui, continuo eu:
chega de saudade apresentava um novo reflexo no espelho dos adolescentes narcisos da época cansados das sanfoneiras e acordeônicas notas musicais que enfeitavam, de cabo a rabo, por dentro e pelas beiradas o brasil da época, com bandeirinhas de papel colorido, tal qual uma constante festa de são joão.
os jovens fugiam disso e estavam pedindo, anseando por novos rumos pra música brasileira.
só pra se ter um apanhado da questão, mário mascarenhas era o acordeonista de plantão daquela era. além da fábrica de acordeões que mantinha em caxias do sul (rs), o cara detinha o monopólio das escolas que ensinavam jovens rebeldes, malcriados, ameaçados de levar pau na escola, a tocar o instrumento não só no interior dos estados, como também nas grandes cidades.
a festa de mil sanfonas promovida pelo músico e professor no final de ano, reunia ex-alunos, professores e alunos que tocavam lascivamente o instrumento.
aquela festança de 1957 contou com os garotos cuja idade rondava os 14 ou 15, marcos valle, eumir deodato, francis hime, edu lobo, carlos alberto pingarilho, etc.
a rebelião instalada na cabeça daqueles garotos era regida pelo desejo insano de trocar o acordeão pelo violão mesmo que isso os obrigasse a tocar canções importadas como, dans mon île, fever, cry me a river ...
muito antes, por volta de 1945 em um ponto escondido do país, juazeiro, joãozinho tinha um violão e um vozeirão capaz de encher o salão de bailes da cidade. junto com seus amigos waltinho, pedrito e alberto ele esperava uma chance para se espalhar por esse mundão de meu d'us.
a chance surgiu num 28 de setembro em que a orquestra do saxofonista babauzinho não poderia tocar no baile da cidade. bem ensaiados puseram-se a tocar malagueña mas, nos primeiros acordes, estourou uma briga. joãozinho continuou cantando, apesar da arruaça, até que o vôo de uma garrafa o ameaçou. mesmo assim eles receberam o pagamento pela apresentação.
o reveillon de 1949, contou com os trinados afinados do vozeirão do joãozinho que nem precisava de microfone mas, com a ajuda dele, o som da festa estava garantido, pois, ele se valia da inspiração de seu maior ídolo, orlando silva.
passou a viver pra música e o violão estava, definitivamente, aglutinado ao seu corpo.
ser médico, advogado ou engenheiro eram projetos que ele acabou por retirar de seus planos para o futuro. seu pai, porém, continuava alimentando-os e a solução para dissuadí-lo a voltar pra escola foi retirar-lhe a mesada que foi logo substituída pela contribuição financeira que os amigos faziam questão de dar. com ela ele comprava cigarros e cordas pro violão, sua maior diversão.
decidido a partir de juazeiro anunciou aos amigos: champanhe, mulheres e música, aqui vou eu!
aos 18 anos foi aprovado num teste para escolha do crooner do grupo garotos da lua e demitido menos de 1 ano depois, por indisciplina: atrasos, faltas, ...
seu primeiro disco, um 78rpm, contendo os sambas-canção, quando ela sai e meia luz, foi ignorado pelas rádios na época e é omitido de sua discografia que, geralmente, tem início 6 anos depois com, chega de saudade, aí, sem o vozeirão.
a maconha, desde 1951 era difundida no rio de janeiro e vendida abertamente na lapa pelos garotos que comercializavam cigarros numa espécie de bandejão. não era crime sua utilização mas era aconselhável não fumar perto de algum policial, ele poderia ter algumas idéias desagradáveis. joão gilberto foi apresentado a ela e achou diferente dos cigarros comuns que lhe causavam engulhos. a erva aguçava-lhe a sensibilidade fazendo-o perceber sons e cores e despertando nele uma coisa mística nunca, até aqueles seus 20 anos, imaginada. a partir daí ele nunca mais fumou caporal douradinho, liberty ovais, lincoln ...
os altos e baixos profissionais e sentimentais de joão gilberto foram inúmeros. sem trabalho, sem dinheiro, morou de favor, foi parar em porto alegre perambulou muito e chegou a diamantina, entre 55 e 56 passando a viver na casa de sua irmã mais velha, dadainha.
lá, ficou conhecido como o cara esquisito que passava o dia de pijama, entocado em casa dedilhando um violão compulsiva e repetidamente.
ali, joão gilberto descobriu que, no banheiro, a acústica era perfeita. os azulejos contribuiam para isto. podia medir a intensidade do som das cordas, que reverberavam. era uma verdadeira câmara de eco. cantando mais baixo poderia adiantar-se ou atrasar-se, como quisesse, criando um tempo ideal, próprio.
para tanto, bastava mudar o modo de emitir o som, mais pelo nariz do que pela boca.
no banheiro da casa de dadainha sua voz misturava e testava sons: o trombone, orlando silva, sinatra, o veludo de dick e sua respiração, conjuntos vocais inteiros, a divisão de lucio alves, alf e seu piano, donato ao acordeão, ...
estava nascendo o joão gilberto de chega de saudade.
ele tinha talento, ele sabia que tinha mas aquele talento não o havia movido do lugar.
usara maconha no rio pra enfrentar a vida dura. em poa o produto era escasso e em diamantina, nem lhe ocorrera procurá-la. naquele banheiro ele estava se encontrando, isto sim.
tomou uma repentina aversão à maconha. ela combina com o sucesso, não com o fracasso.
agora, ele tinha que ir à luta. curvar-se, cumprir horários, estender a mão, pedir para se apresentar, enterrar o orgulho.
two years later, 1958, ele gravaria, acompanhado pela orquestra do maestro soberano, em alta fidelidade, chega de saudade, um samba canção da autoria do próprio maestro tom jobim e vinicius de moraes, que revolucionou a música popular brasileira.





vídeo/chega de saudade, tom jobim e joão gilberto

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